domingo, 31 de Maio de 2009

Câmara Clara - Lugar às ideias

Filme promocional do Programa Câmara Clara, apresentado por Paula Moura Pinheiro na RTP2




Copy: Joaquim Rocha
Direcção de Arte: Ricardo Gaspar
Agência: Ativism
Produção: Bus

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

O meu último trabalho para televisão







Copy:Joaquim Rocha
Direcção de Arte: Ricardo Gaspar, João Martins
Agência Lowe Ativism
Produtora: Caravan

quinta-feira, 14 de Maio de 2009


O OPTIMISMO DOENTIO

Abusando do espaço que me é concedido neste jornal, decidi utilizar os quatro mil caracteres a que tenho direito todos os meses para desancar numa nova corrente de pensamento que cresce na proporção inversa dos índices de mercado das principais bolsas mundiais – o optimismo doentio.

Longe de ser um fenómeno local, o optimismo doentio tem contornos de supra-estrutura ideológica que se propaga facilmente independentemente da idade, sexo, raça, religião ou classe social. Qual vírus da imunodeficiência do bom senso humano, o optimismo doentio é um mal transversal a todas as sociedades e está presente em todos os continentes, o que torna o fenómeno numa catástrofe a nível mundial.

Antes de correr o risco de ser mal interpretado, vou aqui fazer uma declaração de interesses: eu sou um optimista e tenho para mim que a esperança é essencial à vida. Como seria possível viver se não acreditasse que o dia de amanhã vai ser melhor que o dia de hoje? Quem nos momentos difíceis me poderia servir de consolo, de alívio ou dar-me uma garantia de salvação? Quem nos melhores momentos me poderia inspirar a fazer coisas ainda melhores? Seria possível viver sem essa esperança? Pura e simplesmente não seria.

Depois disto, espero que não reste qualquer tipo de dúvidas. Não sou nem nunca fui um pessimista. Há muito que decidi responder àquilo que Camus identificou como a questão central da filosofia – “devo suicidar-me? “– com um valente NÃO e um sorriso franco nos lábios. Sim, acredito que há coisas pelas quais vale muito a pena viver e tu és uma delas, meu amor. Sim, sou um optimista. Um optimista apaixonado. Porém, consciente. Mas consciente de quê?

Consciente de que a esperança é uma ilusão e que esse carácter enganador sempre lhe deu má reputação. Os cínicos, por exemplo, sempre a entenderam como uma propensão para sonharmos acordados, como um alimento de falsas expectativas e ambições irrealistas, uma mentira mascarada de verdade que nos conduz a desilusões maiores. É verdade: a esperança distorce a realidade e impede que aquilo que é verdadeiramente mau e horrível se sobreponha ao que há de melhor e mais bonito.

Porém, e mesmo assim, mesmo sabendo que a esperança pode ser uma dolosa suave mentira, reconheço que ela é das poucas coisas capazes de fornecer um fim agradável e um sentido à vida. Sim, sei que o copo está meio vazio; mas eu gosto de o ver como estando meio cheio. No entanto, é uma opção.

O problema é que para os optimistas doentios isso não acontece. Para eles a questão de o copo estar meio cheio ou meio vazio nem se coloca: o copo está sempre cheio – ponto e não se fala mais nisso. Experimentem dizer o contrário, ensaiar uma crítica ou apontar um defeito, e verão o que vos acontece: rapidamente serão acusados, por um Cândido qualquer, de serem “pobres e mal agradecidos”, “uns meninos mimados que não sabem dar valor ao que têm”, em suma, um “bando de ingratos” que desdenham do facto de viverem no “melhor dos mundos possíveis”.

Os optimistas doentios são, por tudo isto, uns castradores, uma espécie de novos pequenos ditadores, que impedem e inibem o aparecimento e o desenvolvimento de qualquer manifestação de espírito crítico. Impõem o “tens de ver as coisas sempre pela positiva” sem qualquer respeito pelo certo e o errado, e pôr em causa, seja o que for, está para eles absolutamente fora de questão.

Qual directiva da Europa comunitária, o optimismo doentio tende a normalizar o pensamento e impor como única realidade a aceitação sem questionar. Para os seus seguidores está sempre tudo bem: perdeste um braço? Tiveste sorte, podias ter perdido os dois. Morreu-te um primo? Podia ter-te morrido uma tia também. Perdeste a casa num terramoto e estás alojado numa tenda? Encara isso como estado a passar férias num parque de campismo. Levaste quatro tiros no carro a caminho para o trabalho? Sim, mas vives num país que é lindo e maravilhoso, e as pessoas são fantásticas. Para um optimista doentio, e por muito mal que possamos estar, ainda poderíamos estar pior. E assim sendo, só temos de nos dar por felizes e satisfeitos.

A questão é que eu gosto de ver as coisas pelo lado bom, mas odeio ser obrigado a isso. Quero poder ficar triste, deprimido e continuar a criticar tudo e todos, se for caso disso. Por essa razão estou aqui a reivindicar o meu direito à lucidez, aos meus quinze minutos de realidade, mesmo que a seguir me vá perder em falsas expectativas. Assim, peço a todos os optimistas doentios que me poupem aos “és muito negativo” e aos “só sabes dizer mal”, tal como eu prometo poupá-los por pensarem que ser “positivista” equivale a ver as coisas pela positiva, numa total manifestação de ignorância pelo significado da palavra.

E agora que fiz a vontade ao dedo e o gosto à alma, vou encher-me de falsas esperanças e voltar a telefonar-te. Posso?

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)

quarta-feira, 15 de Abril de 2009

O LADO COR-DE-ROSA DA HISTÓRIA





















A história que vos quero contar é uma história de amor. E como todas as boas histórias de amor está repleta de motivações: tem ciúmes e traições, crimes de sangue e defesas de honra, vinganças, lutas pelo poder, e tem também uma cereja no topo do bolo: jogos de sedução entre homens musculados e com nomes estranhos. A história que vos vou contar é cor-de-rosa, é verdade, porém de um rosa choque.

Convido-vos, por isso, a viajar do tempo. A andar uns séculos para trás. Vinte e seis, para ser mais preciso. Estamos em Atenas, em meados do séc. VI, e Cristo ainda não tinha andado pela terra, o que confere à história um grau de inocência difícil de compreender.

Por estes tempos Atenas era governada por dois tiranos – Hípias e o seu irmão Hiparco – sucessores e filhos de Pisístrato, homem que chegou ao poder pela força das armas e que introduziu a tirania como forma de governação da cidade.

Segundo testemunhos da época, seria Hípias o homem responsável pelo poder, já que o seu irmão levava uma vida extravagante, regada com música, vinho e poesia, preferindo a vertigem do prazer a coisas como a obrigação do dever ou a responsabilidade do poder.

Hiparco era um homem culto e a ele se deve o desenvolvimento das artes na cidade. Incentivou políticas de mecenato artístico e literário, rodeando-se na corte de poetas e músicos famosos, como Anacreonte,

Simónides e Laso. Hiparco era um tirano, mas um tirano sensível. Principalmente à beleza de jovens e corpulentos rapazes.

Assim, Hiparco acabaria por se apaixonar perdidamente por Harmódio, um jovem adolescente, lindo de morrer, conhecido por ser o preferido de Aristogíton, um cidadão de classe média, na casa dos 30, e também ele loucamente apaixonado pelo miúdo.

Seguindo os costumes da época, Harmódio terá dado conta ao amante e protector das intenções de Hiparco em lhe dar uns apertões contra uma parede.

Enciumado e com medo que o dinheiro e o poder de Hiparco seduzissem o jovem adolescente, Aristogíton projecta um plano, juntamente com outros atenienses descontentes, para acabar com a vida dos dois tiranos por altura de umas festas que se realizavam na época.

Hiparco, alheio a todas estas conspirações, continuou a tentar seduzir Harmódio, mas este acabaria por lhe dar uma grande tampa. Ferido no seu orgulho por não ver o seu amor correspondido, o sensível tirano pensou numa forma de devolver a

humilhação ao miúdo sem que o seu amante e protector percebesse a verdadeira razão. E se bem o pensou, melhor o fez. Hiparco convida então a irmã do puto a participar nas festas Pan-ateneias para depois lhe recusar a participação, sujeitando-a assim à humilhação pública.

Humilhados e ofendidos, Harmódio e Aristogíton decidem pôr em prática o plano para acabar com os dois tiranos. Porém, agem de forma precipitada e acabam apenas por matar Hiparco. No tumulto que se gerou, Harmódio acaba por ser morto pelos guardas. Aristogíton consegue fugir, mas mais tarde é feito prisioneiro e torturado até à morte.

Depois deste episódio, o braço pesado da tirania abate-se sobre os atenienses.

Hípias persegue e manda matar os cúmplices da morte do seu irmão e todos aqueles que lhe pareciam suspeitos. Porém, a vontade dos dois amantes acabaria por vencer e Hípias acabou por ser deposto e obrigado a fugir para o exílio.

Harmódio e Aristogíton acabariam, assim, por ser consagrados para sempre símbolos da liberdade e da democracia. E o melhor é que as suas motivações não se prendiam com ideais ou grandes utopias, ou com aquilo que eles entendiam ser o melhor para a humanidade, mas com sentimentos bem mais humanos e mais próximos de todos nós: amor, desejo, ciúme e traição.

Para que a democracia tivesse nascido, bastou apenas a beleza e a juventude de um adolescente, da qual um tirano se enamorou, e os ciúmes do seu amante. Não foram necessários líderes iluminados ou outras espécies de libertadores do povo, nem qualquer tipo de revoluções ou sublevações, de cariz popular ou militar, ou valores como a paz, pão, habitação, saúde…

Para mim, que não acredito no sentido demiúrgico da História, do progresso e do desenvolvimento humano, que desdenho de fantasias idealistas e de motivações revolucionárias, este é o bom da História, literalmente o seu lado cor-de-rosa, e no qual eu prefiro acreditar: houve um momento no tempo, pelo menos um, em que o amor entre dois homens foi capaz de mudar o mundo. E mudou.

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)

sexta-feira, 13 de Março de 2009

A PEGA DE BARCELOS

















Entrevistas impossíveis por JAR

Acusado de só entrevistar figuras estrangeiras, decidi começar 2009 por entrevistar aquele que é porventura um dos maiores símbolos do folclore nacional – o Galo de Barcelos.

Quem me conhece sabe que sou pouco dado a folclores e que nutro pouca simpatia por símbolos nacionais. Sabe também que não sou muito amigo da espécie galinácea, embora já me tenha acontecido comer um franguito, aqui e ali, e até tenha gostado.

Porém, esta era uma entrevista que se impunha. Contrariando o horóscopo chinês, 2008 não fora o ano do rato mas o ano do ganda-galo: começou com a crise dos cereais, passou pela crise petrolífera, seguiu pela crise financeira, para acabar com uma crise económica mundial. Maior galo era impossível, até porque os ratos ou abandonaram o navio ou foram presos. Mas adiante, porque isso agora também não interessa nada.

Havia, porém, uma coisa que me irritava no raio do bibelot: o facto de ele ser uma invenção do fascismo, um instrumento ideológico do Estado Novo, um souvenir de barro mal cozido ao serviço da “política do espírito” salazarista.

Meio contrafeito, decidi ligar para Barcelos. Mas da primeira vez, não consegui falar com ele. Andava a brincar na neve que caíra no início de Janeiro:

— Sabe, temos de aproveitar – disse–me mais tarde – Nevar é uma coisa rara aqui em Barcelos. Mas agora com o aquecimento global a coisa tem-se tornado mais frequente. Por vezes até neva no Verão. Mas é mau para a hortaliça. Os grelos e os nabos não se dão bem com o frio. A neve queima tudo e nem erva nasce – justificou-se.

— Estou muito surpreendido – respondi-lhe – Pensei que os bibelots estivessem sempre no mesmo sítio e que os passeios fossem limitados. No máximo uma volta entre a mesa da cozinha, o topo do frigorífico e o cimo da televisão. Isto sempre com um naperonzito como fundo.

— Não, nada disso. Isso eram os galos antigos. Eu sou uma versão pós-moderna do Galo de Barcelos, um resultado do chamado capitalismo tardio. Sou o Galo de Barcelos Snowborder, para ser mais concreto. Aquilo que vulgarmente se chama um Galo de autor.

Pelo cantar deste galo, via-se que andava a comer muita minhoca. Mas eu não quis aprofundar. Pelo menos por enquanto. A conversa haveria de continuar noutro lugar. Na Assembleia da República, na sala dos Passos Perdidos, para ser mais específico. Dizia ele que sentia um fascínio pelo poder. Eu preferia-lhe chamar poleiro.

— Sabia que é o segundo galináceo que entrevisto para este jornal?

— Ai sim?! E quem foi o primeiro? – perguntou curioso.

— Foi a galinha dos ovos de ouro. Mas essa já não está entre nós. Digamos que é galinha que já deu cabidela. Agora é esperar pela próxima. Já você, tem-se mantido…

— Não conhece a minha história? Deveria saber que faço milagres. Mesmo depois de morto e cozinhado, sou capaz de ganhar penas e voltar a voar. Não fora isso e o raio do galego teria morrido enforcado.

— Não está à espera que eu acredite nessa história – disse-lhe num tom sarcástico – toda a gente sabe que a sua história foi completamente inventada pelo Secretariado de Propaganda do Estado Novo. Pensa que me engana? Sei perfeitamente que você não passa de um fascista.

— Fascista, mas arrependido – reforçou com veemência.

Eu estava prestes a atingir o meu limite. Entrevistar um símbolo do fascismo já era mau. Entrevistar um símbolo do fascismo arrependido era uma coisa que não lembrava a ninguém.

— Fascista arrependido? – perguntei incrédulo – isso queria você. Na realidade não passa de um galo oco e com pés de barro. Uma lenda forjada para consumo turístico, muito pior que o Allgarve.

— Não fale assim comigo. Afinal de contas, forjado ou não, eu sou uma peça de design português – retorquiu.

— Uma peça de design – repeti com menosprezo – deve estar a pensar que alguém o vai convidar para a próxima edição da Experimenta. Esqueça lá isso. Você na realidade não é nada; nem uma peça de artesanato, dadas as quantidades em que você é produzido. E uma vez que se trata de um fascista arrependido, esvaziado de conteúdos ideológicos, diria mesmo que quando muito é uma peça de anti-design português que praticamente só existe em casa de brasileiros.

— Vamos mas é parar com esta conversa – gritou-me o Galo levantando a crista.

— Eh lá! Muita calminha – disse-lhe olhando-o nos olhos – Você aqui não manda calar ninguém; isso era no tempo da outra senhora.

— A culpa disto – disse-me cacarejando – a culpa disto é do comunista do Marcelo Caetano.

Com esta mandei-me para o chão. Já não aguentava tanto disparate. Já tinha ouvido chamar de tudo ao homem, mas comunista tinha sido a primeira vez.

— Não sei se já lhe disseram mas eu sou um excelente contador de anedotas.

— Por acaso desconhecia. Disseram–me muitas coisas a seu respeito mas que não abonam muito a seu favor.

— Ai sim? O quê, por exemplo?

— Que você não passava de um Galo capão, de gostos duvidosos, que usava coraçõezinhos abichanados, que gostava de cantar de galo, mas que faz de tudo para que lhe enfiem o dedo para ver se tinha ovo.

— Pois olhe que nem tudo é mentira – assentiu com ar sedutor – E agora que reparo bem em si, devo dizer-lhe que tem um ar bastante engraçado. Já experimentou uma foda à galo?

E foi aqui percebi que tinha chegado o meu momento. Acabei com o jogo do galo, fiz três-em-linha, e mandei-o ir cantar para outra freguesia.

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)

sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

NATAL EM FAMÍLIA












Entrevistas impossíveis por JAR


E eis, caro leitor, que chegamos à época do ano que mais se adequa ao espírito destas entrevistas – o Natal. Tal como tudo aquilo que por aqui escrevo, no Natal tudo é falso. Deliciosamente falso: o Pai Natal não existe, o menino Jesus também não, e o São Nicolau é mais um santo que faz umas coisas que carecem de credibilidade – milagres.

Não foi fácil, por isso, decidir qual dos três deveria entrevistar, e fui mesmo obrigado a uns momentos de reflexão: uma vez que eu não queria nada com santos, a escolha teria de ser feita entre o calaceiro do menino Jesus - sempre na palheta deitado e estendido - e esse velho representante da classe operária que, uma vez por ano, se vê obrigado a visitar cerca de 378 milhões de crianças, em 31 horas de trabalho, tempo de duração de uma noite de Natal, dada à existência de diferentes fusos horários. Mas dado que esta entrevista também não é para meninos, acabei por optar por entrevistar o Pai Natal, e deixar o Jesus, deitado e estendido, na palheta com a vaca e com o burro. O melhor seria não mexer no presépio.

Foi assim que regressei à infância e voltei a escrever ao Pai Natal, agora em versão electrónica, não para pedir brinquedos, mas uma entrevista. A resposta acabaria por chegar dias depois, também em versão electrónica, mas com encontro marcado na China, para onde se tinham mudado todas as fábricas de brinquedos da Lapónia. Mas que chatice! – pensei – Para a China?!!! Não estava nada a apetecer-me. Troca de e-mail para lá, troca de e-mail para cá, acabei por marcar encontro com o Pai Natal no Toys’R’Us de Alfragide. Sempre era mais perto.

E é aqui, caro leitor, que esta entrevista se aproxima fatalmente de uma triste história de Natal muito pior do que as da Disney todas juntas. Chegado ao Toys’R’Us, e para grande espanto meu, quem lá estava não era o Pai Natal, mas o meu pai. Sim, leram bem – o meu pai! – na companhia de um veado de nariz vermelho e de duas renas com ar de cabras.

– Mas o que estás tu aqui a fazer? – perguntei eu em estado de choque – a mãe sabe disto?

– A tua mãe só saberá disto, se fores tu a contar-lhe. Sim, porque eu não acredito que ela vá ao blog do Lux ler esta entrevista. O Magalhães que ela tem não vai tão longe…

– Mas pai… és capaz de me explicar o que se passa e qual a razão de estares aqui?

– Não querias entrevistar o Pai Natal? Pois aqui estou - respondeu-me meio irritado – Mas não percebo esse teu espanto. Já és suficientemente crescido para saber que o Pai Natal não existe. Somos nós, os pais, que nos vestimos de vermelho e fingimos ser o velho barbudo carregado de presentes. Não me digas que não conhecias a história? - E ria - Oh! Oh! Oh!

Eu não estava a acreditar neste filme. Só me faltava isto: ser enxovalhado em público e pelo meu próprio pai. Tinha de pôr um cobro a isto.

– Pai, tem cuidado com o que dizes porque estamos a ser lidos por milhares de pessoas, incluindo todos os meus amigos. E francamente, tu já não tens idade para isto. Já viste essa tua figurinha de speedo de lycra vermelha. Vou ter de ligar à mãe.

– Nem penses! Não faças isso. Se ligares à tua mãe vou ter de lhe dizer que aquela amiga que costumas levar a jantar lá a casa – e que ela gostaria muito de ter como nora – afinal se chama João. Pode ser que ela queira ir ver o show dele, no próximo fim-de-semana, ao Finalmente. A tua mãe é pessoa para gostar… ou disso ou de o ver no “lugar às novas”, essa espécie de “American Idols” para travestis em início de carreira. Esse teu amigo saiu-me cá um artista…

– Pai, por favor, não estamos em casa. Dá para seres um pouco mais discreto? – perguntei-lhe entre dentes.

– Que seca, pá! Em miúdo tinhas muito mais sentido de humor. Ainda me lembro dos natais em que imitavas a Judy Garland… Tinhas tanto jeito… e que bem que cantavas o “Somewhere Over The Rainbow”. Isto aos 8 anos! Sempre foste muito precoce…

– Mas isso passou-me com a idade – obstei com desagrado.

– Passou, passou… Passou da mãe para a filha. Lembro-me muito bem de ti, já por volta dos teus 12, com uma cadeira às costas a tentar imitar a Liza Minnelli no Cabaret. Mas tiveste mais fases: a fase Diana Ross, a fase Shirley Bassey, a fase Lola Flores… Isto até aos 15, porque aos 17 davas grandes shows a imitar as coreografias dos Modern Talking. Porém, agradeço-te nunca teres chegado à fase Boy George. Teria sido dramático.

– Bom… – disse eu em tom de ataque – se o Pai Natal não existe, como justificas que no ano passado a avó tenha recebido de presente um vibrador e o avô um tubo de K-Y, que ele usou para lubrificar os travões da cadeira de rodas? Olhando para ti assim vestido, deduzo que houve aqui dedinho teu…

– Filho… não entres por aí – disse-me com tom paternal – há coisas que um rapaz da tua idade já deveria saber.

E dando uso a um adjectivo muito na moda continuou:

– O Natal é a mais improvável das festas, uma celebração da não existência, uma mentira colectiva na qual (quase) todos gostamos de embarcar. Durante um período de tempo, que pode oscilar entre os dois e os cinco dias, somos falsamente simpáticos, prestáveis, generosos, e cultivamos falsos bons sentimentos. É certo que podemos ser falsamente simpáticos, prestáveis e generosos noutras alturas do ano. Mas talvez seja por isso que se diz que “Natal é todos os dias” ou que “Natal é quando um homem quiser”. Como diz um amigo meu, o Natal é apenas um momento em que fingimos ser bons para podermos ser realmente maus durante o resto do ano. E a isto se chama a magia do Natal. E agora deixa de fingir que és jornalista e anda daí beber uma jolas com as minhas amigas renas.

– Desculpa?!!!… – respondi eu incrédulo.

– Ok, Ok… Podes ir com o meu amigo veado, se preferires…

E foi neste preciso momento que comecei a ouvir sininhos.

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)

A GRANDE CABIDELA












Entrevistas impossíveis por JAR


Eram cinco da manhã e o meu telemóvel tocava insistentemente. Levantei-me, estremunhado, e apressei-me a atender a chamada. Do outro lado, alguém gritava:

— Mataram a galinha dos ovos de ouro! Mataram a galinha dos ovos de ouro! Mataram a galinha dos ovos de ouro!

Repetiram assim mesmo – três vezes. Eu, aturdido, dei dois passos atrás e sentei-me na beira da cama. Numa espécie de experiência do eterno retorno, acabava de confirmar a estranha tendência da humanidade para repetir a sua história no que ela tem de pior: acabar com a galinha dos ovos de ouro.

— Mas como? – perguntei eu ainda incrédulo – Foi com a gripe das aves? Bem que eu lhe disse para se agasalhar…

— Não, nada disso. Desta vez o H5N1 não teve nada a ver com o assunto. Consta que foi sobrealimentada pela mão invisível do mercado. Comeu tanto que rebentou. Aconteceu tudo no galinheiro de Wall Street. Um espectáculo medonho. Sangue por todo o lado.

Assistimos hoje a várias tragédias humanas, mas os meus ouvidos eram demasiado frágeis para ouvir tamanha atrocidade. Eu estava destroçado.

— Mas quem é você? – perguntei intrigado.

— Não lhe posso dizer. Pediram-me só para o avisar que o arroz de cabidela à La Subprime irá ser servido ao fim da tarde; mais ou menos por volta das seis.
Grandes comedeirões! O animal acabara de morrer e já se preparavam para lhe roer os ossos. A coisa não haveria de ficar assim. Era necessário apurar responsabilidades. Fazer queixa à Liga Protectora dos Animais ou mesmo à ASAE, já que a cabidela é proibida. Como iriam ser os nossos dias daqui para a frente? Certamente difíceis, agora que parecia não ser mais possível contar com o ovo no cu da galinha. E se há galinhas para matar! Podiam ter matado a galinha de ovos de chocolate, por exemplo, que faz mal aos dentes; ou a galinha dos ovos moles, por causa do colesterol. Mas não. Tinha de ser a dos ovos de ouro. Porquê? Sempre gostava de saber a razão desta tendência. A verdade é que nunca ninguém ouviu falar da morte da galinha dos ovos de prata, de bronze ou de platina. Ou mesmo na morte da galinha dos ovos Kinder Surpresa. E se me interrogo desta forma, não é por a galinha ter morrido, mas pelo tempo que demora arranjar outra. Recordei-me então da última vez que a entrevistei. O animal parecia que adivinhava:

— Um dia destes acabam comigo – dizia resignada.

— Acha que isso é mesmo inevitável? Talvez fosse melhor pedir uma escolta policial.

— Não adianta. É o que acontece sempre. Faz parte da condição humana. É como respirar. Nem se dá por isso. Um dia a humanidade acorda e percebe que eu morri.

— A humanidade talvez seja muita gente, se considerarmos que metade do mundo nunca viu um ovo à frente, muito menos de ouro.

— O problema do sistema dos ovos de ouro é que nunca há ovos para todos.
E depois há sempre aqueles que ficam com mais ovos do que outros. É a chamada lei do mercado. Os ovos tendem a acumular-se nas mãos de poucos.

— Mas não há forma de haver ovos para todos? Ou pelo menos fazer com que eles possam ser melhor redistribuídos. Criar regras, por exemplo. Ou então, nacionalizar os ovos de ouro.

— Eu sou uma galinha livre e com muita regulamentação tendo a pôr poucos ovos. Mas nas mãos do Estado ainda é pior. Chego mesmo a deixar de pôr.

— Compreendo. Eu também não gosto muito de me sentir apertado. Mas já experimentou explicar às pessoas que vós, galinhas dos ovos de ouro, por dentro só têm tripas e miudagens como as outras?

— Sim, mas não adianta. Vêm sempre com aquela conversa: “Se eu fosse o dono da galinha guardava os ovos numa arca de tesouros. Tratava-a muito bem, cuidava dela. Ao fim do dia recolhia o ovo e dava–lhe de comer. Quando ficasse rico comprava um castelo, contratava muitos empregados e pagava-lhes bons ordenados. Gostaria de ver toda a gente feliz à minha volta”. É nesta altura, geralmente, que me espetam a faca no pescoço.

— Coitada – disse eu enojado – que triste fim.
A triste imagem da galinha degolada fez-me acordar. Tinha de me despachar para a cabidela à La Subprime. Fui informado por SMS que seria servida na cantina da Bolsa de Lisboa. Apanhei um Táxi e fiz-me à estrada.

Quando cheguei, deparei-me com uma manifestação de protesto contra o aumento do preço do milho. Depois de algum esforço, apertos e empurrões lá consegui entrar. O ambiente, um tanto ao quanto dúbio, oscilava entre a euforia dos ganhos e a desolação das perdas. No ar, o cheiro a vinagre dava a tudo aquilo um certo sabor amargo. Um grande tacho, onde jaziam os restos mortais da galinha dos ovos de ouro, ocupava o centro do refeitório. À volta dele um grupo de velhas senhoras, elegantemente vestidas de preto, como convém nestes momentos, rezava o terço e pedia milagres. Estavam ainda presentes altos funcionários do estado, deputados e alguns ministros. Havia ainda um grupo de maus artistas, jornalistas, oportunistas, banqueiros, correctores e outros membros da alta finança, todos muito abatidos. A tudo isto não faltou o representante da igreja, que olhou para aquilo com ar de tanga: “Morreu a galinha? Solte-se a franga”.

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)