quarta-feira, 15 de abril de 2009

O LADO COR-DE-ROSA DA HISTÓRIA





















A história que vos quero contar é uma história de amor. E como todas as boas histórias de amor está repleta de motivações: tem ciúmes e traições, crimes de sangue e defesas de honra, vinganças, lutas pelo poder, e tem também uma cereja no topo do bolo: jogos de sedução entre homens musculados e com nomes estranhos. A história que vos vou contar é cor-de-rosa, é verdade, porém de um rosa choque.

Convido-vos, por isso, a viajar do tempo. A andar uns séculos para trás. Vinte e seis, para ser mais preciso. Estamos em Atenas, em meados do séc. VI, e Cristo ainda não tinha andado pela terra, o que confere à história um grau de inocência difícil de compreender.

Por estes tempos Atenas era governada por dois tiranos – Hípias e o seu irmão Hiparco – sucessores e filhos de Pisístrato, homem que chegou ao poder pela força das armas e que introduziu a tirania como forma de governação da cidade.

Segundo testemunhos da época, seria Hípias o homem responsável pelo poder, já que o seu irmão levava uma vida extravagante, regada com música, vinho e poesia, preferindo a vertigem do prazer a coisas como a obrigação do dever ou a responsabilidade do poder.

Hiparco era um homem culto e a ele se deve o desenvolvimento das artes na cidade. Incentivou políticas de mecenato artístico e literário, rodeando-se na corte de poetas e músicos famosos, como Anacreonte,

Simónides e Laso. Hiparco era um tirano, mas um tirano sensível. Principalmente à beleza de jovens e corpulentos rapazes.

Assim, Hiparco acabaria por se apaixonar perdidamente por Harmódio, um jovem adolescente, lindo de morrer, conhecido por ser o preferido de Aristogíton, um cidadão de classe média, na casa dos 30, e também ele loucamente apaixonado pelo miúdo.

Seguindo os costumes da época, Harmódio terá dado conta ao amante e protector das intenções de Hiparco em lhe dar uns apertões contra uma parede.

Enciumado e com medo que o dinheiro e o poder de Hiparco seduzissem o jovem adolescente, Aristogíton projecta um plano, juntamente com outros atenienses descontentes, para acabar com a vida dos dois tiranos por altura de umas festas que se realizavam na época.

Hiparco, alheio a todas estas conspirações, continuou a tentar seduzir Harmódio, mas este acabaria por lhe dar uma grande tampa. Ferido no seu orgulho por não ver o seu amor correspondido, o sensível tirano pensou numa forma de devolver a

humilhação ao miúdo sem que o seu amante e protector percebesse a verdadeira razão. E se bem o pensou, melhor o fez. Hiparco convida então a irmã do puto a participar nas festas Pan-ateneias para depois lhe recusar a participação, sujeitando-a assim à humilhação pública.

Humilhados e ofendidos, Harmódio e Aristogíton decidem pôr em prática o plano para acabar com os dois tiranos. Porém, agem de forma precipitada e acabam apenas por matar Hiparco. No tumulto que se gerou, Harmódio acaba por ser morto pelos guardas. Aristogíton consegue fugir, mas mais tarde é feito prisioneiro e torturado até à morte.

Depois deste episódio, o braço pesado da tirania abate-se sobre os atenienses.

Hípias persegue e manda matar os cúmplices da morte do seu irmão e todos aqueles que lhe pareciam suspeitos. Porém, a vontade dos dois amantes acabaria por vencer e Hípias acabou por ser deposto e obrigado a fugir para o exílio.

Harmódio e Aristogíton acabariam, assim, por ser consagrados para sempre símbolos da liberdade e da democracia. E o melhor é que as suas motivações não se prendiam com ideais ou grandes utopias, ou com aquilo que eles entendiam ser o melhor para a humanidade, mas com sentimentos bem mais humanos e mais próximos de todos nós: amor, desejo, ciúme e traição.

Para que a democracia tivesse nascido, bastou apenas a beleza e a juventude de um adolescente, da qual um tirano se enamorou, e os ciúmes do seu amante. Não foram necessários líderes iluminados ou outras espécies de libertadores do povo, nem qualquer tipo de revoluções ou sublevações, de cariz popular ou militar, ou valores como a paz, pão, habitação, saúde…

Para mim, que não acredito no sentido demiúrgico da História, do progresso e do desenvolvimento humano, que desdenho de fantasias idealistas e de motivações revolucionárias, este é o bom da História, literalmente o seu lado cor-de-rosa, e no qual eu prefiro acreditar: houve um momento no tempo, pelo menos um, em que o amor entre dois homens foi capaz de mudar o mundo. E mudou.

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)

sexta-feira, 13 de março de 2009

A PEGA DE BARCELOS

















Entrevistas impossíveis por JAR

Acusado de só entrevistar figuras estrangeiras, decidi começar 2009 por entrevistar aquele que é porventura um dos maiores símbolos do folclore nacional – o Galo de Barcelos.

Quem me conhece sabe que sou pouco dado a folclores e que nutro pouca simpatia por símbolos nacionais. Sabe também que não sou muito amigo da espécie galinácea, embora já me tenha acontecido comer um franguito, aqui e ali, e até tenha gostado.

Porém, esta era uma entrevista que se impunha. Contrariando o horóscopo chinês, 2008 não fora o ano do rato mas o ano do ganda-galo: começou com a crise dos cereais, passou pela crise petrolífera, seguiu pela crise financeira, para acabar com uma crise económica mundial. Maior galo era impossível, até porque os ratos ou abandonaram o navio ou foram presos. Mas adiante, porque isso agora também não interessa nada.

Havia, porém, uma coisa que me irritava no raio do bibelot: o facto de ele ser uma invenção do fascismo, um instrumento ideológico do Estado Novo, um souvenir de barro mal cozido ao serviço da “política do espírito” salazarista.

Meio contrafeito, decidi ligar para Barcelos. Mas da primeira vez, não consegui falar com ele. Andava a brincar na neve que caíra no início de Janeiro:

— Sabe, temos de aproveitar – disse–me mais tarde – Nevar é uma coisa rara aqui em Barcelos. Mas agora com o aquecimento global a coisa tem-se tornado mais frequente. Por vezes até neva no Verão. Mas é mau para a hortaliça. Os grelos e os nabos não se dão bem com o frio. A neve queima tudo e nem erva nasce – justificou-se.

— Estou muito surpreendido – respondi-lhe – Pensei que os bibelots estivessem sempre no mesmo sítio e que os passeios fossem limitados. No máximo uma volta entre a mesa da cozinha, o topo do frigorífico e o cimo da televisão. Isto sempre com um naperonzito como fundo.

— Não, nada disso. Isso eram os galos antigos. Eu sou uma versão pós-moderna do Galo de Barcelos, um resultado do chamado capitalismo tardio. Sou o Galo de Barcelos Snowborder, para ser mais concreto. Aquilo que vulgarmente se chama um Galo de autor.

Pelo cantar deste galo, via-se que andava a comer muita minhoca. Mas eu não quis aprofundar. Pelo menos por enquanto. A conversa haveria de continuar noutro lugar. Na Assembleia da República, na sala dos Passos Perdidos, para ser mais específico. Dizia ele que sentia um fascínio pelo poder. Eu preferia-lhe chamar poleiro.

— Sabia que é o segundo galináceo que entrevisto para este jornal?

— Ai sim?! E quem foi o primeiro? – perguntou curioso.

— Foi a galinha dos ovos de ouro. Mas essa já não está entre nós. Digamos que é galinha que já deu cabidela. Agora é esperar pela próxima. Já você, tem-se mantido…

— Não conhece a minha história? Deveria saber que faço milagres. Mesmo depois de morto e cozinhado, sou capaz de ganhar penas e voltar a voar. Não fora isso e o raio do galego teria morrido enforcado.

— Não está à espera que eu acredite nessa história – disse-lhe num tom sarcástico – toda a gente sabe que a sua história foi completamente inventada pelo Secretariado de Propaganda do Estado Novo. Pensa que me engana? Sei perfeitamente que você não passa de um fascista.

— Fascista, mas arrependido – reforçou com veemência.

Eu estava prestes a atingir o meu limite. Entrevistar um símbolo do fascismo já era mau. Entrevistar um símbolo do fascismo arrependido era uma coisa que não lembrava a ninguém.

— Fascista arrependido? – perguntei incrédulo – isso queria você. Na realidade não passa de um galo oco e com pés de barro. Uma lenda forjada para consumo turístico, muito pior que o Allgarve.

— Não fale assim comigo. Afinal de contas, forjado ou não, eu sou uma peça de design português – retorquiu.

— Uma peça de design – repeti com menosprezo – deve estar a pensar que alguém o vai convidar para a próxima edição da Experimenta. Esqueça lá isso. Você na realidade não é nada; nem uma peça de artesanato, dadas as quantidades em que você é produzido. E uma vez que se trata de um fascista arrependido, esvaziado de conteúdos ideológicos, diria mesmo que quando muito é uma peça de anti-design português que praticamente só existe em casa de brasileiros.

— Vamos mas é parar com esta conversa – gritou-me o Galo levantando a crista.

— Eh lá! Muita calminha – disse-lhe olhando-o nos olhos – Você aqui não manda calar ninguém; isso era no tempo da outra senhora.

— A culpa disto – disse-me cacarejando – a culpa disto é do comunista do Marcelo Caetano.

Com esta mandei-me para o chão. Já não aguentava tanto disparate. Já tinha ouvido chamar de tudo ao homem, mas comunista tinha sido a primeira vez.

— Não sei se já lhe disseram mas eu sou um excelente contador de anedotas.

— Por acaso desconhecia. Disseram–me muitas coisas a seu respeito mas que não abonam muito a seu favor.

— Ai sim? O quê, por exemplo?

— Que você não passava de um Galo capão, de gostos duvidosos, que usava coraçõezinhos abichanados, que gostava de cantar de galo, mas que faz de tudo para que lhe enfiem o dedo para ver se tinha ovo.

— Pois olhe que nem tudo é mentira – assentiu com ar sedutor – E agora que reparo bem em si, devo dizer-lhe que tem um ar bastante engraçado. Já experimentou uma foda à galo?

E foi aqui percebi que tinha chegado o meu momento. Acabei com o jogo do galo, fiz três-em-linha, e mandei-o ir cantar para outra freguesia.

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

NATAL EM FAMÍLIA












Entrevistas impossíveis por JAR


E eis, caro leitor, que chegamos à época do ano que mais se adequa ao espírito destas entrevistas – o Natal. Tal como tudo aquilo que por aqui escrevo, no Natal tudo é falso. Deliciosamente falso: o Pai Natal não existe, o menino Jesus também não, e o São Nicolau é mais um santo que faz umas coisas que carecem de credibilidade – milagres.

Não foi fácil, por isso, decidir qual dos três deveria entrevistar, e fui mesmo obrigado a uns momentos de reflexão: uma vez que eu não queria nada com santos, a escolha teria de ser feita entre o calaceiro do menino Jesus - sempre na palheta deitado e estendido - e esse velho representante da classe operária que, uma vez por ano, se vê obrigado a visitar cerca de 378 milhões de crianças, em 31 horas de trabalho, tempo de duração de uma noite de Natal, dada à existência de diferentes fusos horários. Mas dado que esta entrevista também não é para meninos, acabei por optar por entrevistar o Pai Natal, e deixar o Jesus, deitado e estendido, na palheta com a vaca e com o burro. O melhor seria não mexer no presépio.

Foi assim que regressei à infância e voltei a escrever ao Pai Natal, agora em versão electrónica, não para pedir brinquedos, mas uma entrevista. A resposta acabaria por chegar dias depois, também em versão electrónica, mas com encontro marcado na China, para onde se tinham mudado todas as fábricas de brinquedos da Lapónia. Mas que chatice! – pensei – Para a China?!!! Não estava nada a apetecer-me. Troca de e-mail para lá, troca de e-mail para cá, acabei por marcar encontro com o Pai Natal no Toys’R’Us de Alfragide. Sempre era mais perto.

E é aqui, caro leitor, que esta entrevista se aproxima fatalmente de uma triste história de Natal muito pior do que as da Disney todas juntas. Chegado ao Toys’R’Us, e para grande espanto meu, quem lá estava não era o Pai Natal, mas o meu pai. Sim, leram bem – o meu pai! – na companhia de um veado de nariz vermelho e de duas renas com ar de cabras.

– Mas o que estás tu aqui a fazer? – perguntei eu em estado de choque – a mãe sabe disto?

– A tua mãe só saberá disto, se fores tu a contar-lhe. Sim, porque eu não acredito que ela vá ao blog do Lux ler esta entrevista. O Magalhães que ela tem não vai tão longe…

– Mas pai… és capaz de me explicar o que se passa e qual a razão de estares aqui?

– Não querias entrevistar o Pai Natal? Pois aqui estou - respondeu-me meio irritado – Mas não percebo esse teu espanto. Já és suficientemente crescido para saber que o Pai Natal não existe. Somos nós, os pais, que nos vestimos de vermelho e fingimos ser o velho barbudo carregado de presentes. Não me digas que não conhecias a história? - E ria - Oh! Oh! Oh!

Eu não estava a acreditar neste filme. Só me faltava isto: ser enxovalhado em público e pelo meu próprio pai. Tinha de pôr um cobro a isto.

– Pai, tem cuidado com o que dizes porque estamos a ser lidos por milhares de pessoas, incluindo todos os meus amigos. E francamente, tu já não tens idade para isto. Já viste essa tua figurinha de speedo de lycra vermelha. Vou ter de ligar à mãe.

– Nem penses! Não faças isso. Se ligares à tua mãe vou ter de lhe dizer que aquela amiga que costumas levar a jantar lá a casa – e que ela gostaria muito de ter como nora – afinal se chama João. Pode ser que ela queira ir ver o show dele, no próximo fim-de-semana, ao Finalmente. A tua mãe é pessoa para gostar… ou disso ou de o ver no “lugar às novas”, essa espécie de “American Idols” para travestis em início de carreira. Esse teu amigo saiu-me cá um artista…

– Pai, por favor, não estamos em casa. Dá para seres um pouco mais discreto? – perguntei-lhe entre dentes.

– Que seca, pá! Em miúdo tinhas muito mais sentido de humor. Ainda me lembro dos natais em que imitavas a Judy Garland… Tinhas tanto jeito… e que bem que cantavas o “Somewhere Over The Rainbow”. Isto aos 8 anos! Sempre foste muito precoce…

– Mas isso passou-me com a idade – obstei com desagrado.

– Passou, passou… Passou da mãe para a filha. Lembro-me muito bem de ti, já por volta dos teus 12, com uma cadeira às costas a tentar imitar a Liza Minnelli no Cabaret. Mas tiveste mais fases: a fase Diana Ross, a fase Shirley Bassey, a fase Lola Flores… Isto até aos 15, porque aos 17 davas grandes shows a imitar as coreografias dos Modern Talking. Porém, agradeço-te nunca teres chegado à fase Boy George. Teria sido dramático.

– Bom… – disse eu em tom de ataque – se o Pai Natal não existe, como justificas que no ano passado a avó tenha recebido de presente um vibrador e o avô um tubo de K-Y, que ele usou para lubrificar os travões da cadeira de rodas? Olhando para ti assim vestido, deduzo que houve aqui dedinho teu…

– Filho… não entres por aí – disse-me com tom paternal – há coisas que um rapaz da tua idade já deveria saber.

E dando uso a um adjectivo muito na moda continuou:

– O Natal é a mais improvável das festas, uma celebração da não existência, uma mentira colectiva na qual (quase) todos gostamos de embarcar. Durante um período de tempo, que pode oscilar entre os dois e os cinco dias, somos falsamente simpáticos, prestáveis, generosos, e cultivamos falsos bons sentimentos. É certo que podemos ser falsamente simpáticos, prestáveis e generosos noutras alturas do ano. Mas talvez seja por isso que se diz que “Natal é todos os dias” ou que “Natal é quando um homem quiser”. Como diz um amigo meu, o Natal é apenas um momento em que fingimos ser bons para podermos ser realmente maus durante o resto do ano. E a isto se chama a magia do Natal. E agora deixa de fingir que és jornalista e anda daí beber uma jolas com as minhas amigas renas.

– Desculpa?!!!… – respondi eu incrédulo.

– Ok, Ok… Podes ir com o meu amigo veado, se preferires…

E foi neste preciso momento que comecei a ouvir sininhos.

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)

A GRANDE CABIDELA












Entrevistas impossíveis por JAR


Eram cinco da manhã e o meu telemóvel tocava insistentemente. Levantei-me, estremunhado, e apressei-me a atender a chamada. Do outro lado, alguém gritava:

— Mataram a galinha dos ovos de ouro! Mataram a galinha dos ovos de ouro! Mataram a galinha dos ovos de ouro!

Repetiram assim mesmo – três vezes. Eu, aturdido, dei dois passos atrás e sentei-me na beira da cama. Numa espécie de experiência do eterno retorno, acabava de confirmar a estranha tendência da humanidade para repetir a sua história no que ela tem de pior: acabar com a galinha dos ovos de ouro.

— Mas como? – perguntei eu ainda incrédulo – Foi com a gripe das aves? Bem que eu lhe disse para se agasalhar…

— Não, nada disso. Desta vez o H5N1 não teve nada a ver com o assunto. Consta que foi sobrealimentada pela mão invisível do mercado. Comeu tanto que rebentou. Aconteceu tudo no galinheiro de Wall Street. Um espectáculo medonho. Sangue por todo o lado.

Assistimos hoje a várias tragédias humanas, mas os meus ouvidos eram demasiado frágeis para ouvir tamanha atrocidade. Eu estava destroçado.

— Mas quem é você? – perguntei intrigado.

— Não lhe posso dizer. Pediram-me só para o avisar que o arroz de cabidela à La Subprime irá ser servido ao fim da tarde; mais ou menos por volta das seis.
Grandes comedeirões! O animal acabara de morrer e já se preparavam para lhe roer os ossos. A coisa não haveria de ficar assim. Era necessário apurar responsabilidades. Fazer queixa à Liga Protectora dos Animais ou mesmo à ASAE, já que a cabidela é proibida. Como iriam ser os nossos dias daqui para a frente? Certamente difíceis, agora que parecia não ser mais possível contar com o ovo no cu da galinha. E se há galinhas para matar! Podiam ter matado a galinha de ovos de chocolate, por exemplo, que faz mal aos dentes; ou a galinha dos ovos moles, por causa do colesterol. Mas não. Tinha de ser a dos ovos de ouro. Porquê? Sempre gostava de saber a razão desta tendência. A verdade é que nunca ninguém ouviu falar da morte da galinha dos ovos de prata, de bronze ou de platina. Ou mesmo na morte da galinha dos ovos Kinder Surpresa. E se me interrogo desta forma, não é por a galinha ter morrido, mas pelo tempo que demora arranjar outra. Recordei-me então da última vez que a entrevistei. O animal parecia que adivinhava:

— Um dia destes acabam comigo – dizia resignada.

— Acha que isso é mesmo inevitável? Talvez fosse melhor pedir uma escolta policial.

— Não adianta. É o que acontece sempre. Faz parte da condição humana. É como respirar. Nem se dá por isso. Um dia a humanidade acorda e percebe que eu morri.

— A humanidade talvez seja muita gente, se considerarmos que metade do mundo nunca viu um ovo à frente, muito menos de ouro.

— O problema do sistema dos ovos de ouro é que nunca há ovos para todos.
E depois há sempre aqueles que ficam com mais ovos do que outros. É a chamada lei do mercado. Os ovos tendem a acumular-se nas mãos de poucos.

— Mas não há forma de haver ovos para todos? Ou pelo menos fazer com que eles possam ser melhor redistribuídos. Criar regras, por exemplo. Ou então, nacionalizar os ovos de ouro.

— Eu sou uma galinha livre e com muita regulamentação tendo a pôr poucos ovos. Mas nas mãos do Estado ainda é pior. Chego mesmo a deixar de pôr.

— Compreendo. Eu também não gosto muito de me sentir apertado. Mas já experimentou explicar às pessoas que vós, galinhas dos ovos de ouro, por dentro só têm tripas e miudagens como as outras?

— Sim, mas não adianta. Vêm sempre com aquela conversa: “Se eu fosse o dono da galinha guardava os ovos numa arca de tesouros. Tratava-a muito bem, cuidava dela. Ao fim do dia recolhia o ovo e dava–lhe de comer. Quando ficasse rico comprava um castelo, contratava muitos empregados e pagava-lhes bons ordenados. Gostaria de ver toda a gente feliz à minha volta”. É nesta altura, geralmente, que me espetam a faca no pescoço.

— Coitada – disse eu enojado – que triste fim.
A triste imagem da galinha degolada fez-me acordar. Tinha de me despachar para a cabidela à La Subprime. Fui informado por SMS que seria servida na cantina da Bolsa de Lisboa. Apanhei um Táxi e fiz-me à estrada.

Quando cheguei, deparei-me com uma manifestação de protesto contra o aumento do preço do milho. Depois de algum esforço, apertos e empurrões lá consegui entrar. O ambiente, um tanto ao quanto dúbio, oscilava entre a euforia dos ganhos e a desolação das perdas. No ar, o cheiro a vinagre dava a tudo aquilo um certo sabor amargo. Um grande tacho, onde jaziam os restos mortais da galinha dos ovos de ouro, ocupava o centro do refeitório. À volta dele um grupo de velhas senhoras, elegantemente vestidas de preto, como convém nestes momentos, rezava o terço e pedia milagres. Estavam ainda presentes altos funcionários do estado, deputados e alguns ministros. Havia ainda um grupo de maus artistas, jornalistas, oportunistas, banqueiros, correctores e outros membros da alta finança, todos muito abatidos. A tudo isto não faltou o representante da igreja, que olhou para aquilo com ar de tanga: “Morreu a galinha? Solte-se a franga”.

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)

NO MELHOR PANO CAI O NODDY


























Entrevistas impossíveis por JAR



Não foi fácil conseguir esta entrevista. Não só porque se trata de uma entrevista impossível, mas também porque o boneco andava muito atarefado com o início das aulas. “É a altura do ano em que tenho mais trabalho”. A proposição era facilmente verificável. Não havia hipermercado ou loja de brinquedos onde o gajo não estivesse. Eram prateleiras e prateleiras apinhadas com cadernos do Noddy, livros do Noddy, lápis do Noddy, canetas do Noddy, tudo-e-mais-alguma-coisa do Noddy. O boneco tinha o dom da ubiquidade e estava por todo o lado.

Mas eu estava decidido. Era esta a figura a entrevistar. Precisava de saber que personagem era essa que andava a aliciar toda uma geração de futuros contribuintes. Seria uma boa influência? Tomaria drogas? Sairia à noite? Que locais frequentava? Iria à missa? Quais os seus gostos sexuais? Faria sexo em grupo? Que música ouvia?

Decidi, por isso, insistir. E depois de muito lhe telefonar, acabei por conseguir a entrevista. Marcamos encontro no hiper da Amadora. O boneco andava em digressão pelo Centros Comerciais do país numa espécie de concentração tuning de jovens pais e carrinhos de bebé. “Encontro-me contigo na praça da alimentação”. Foi o combinado. Mas para grande espanto meu apareceu um boneco todo branco:

- Não era suposto usares umas roupas mais coloridas? – perguntei intrigado.

- Sim, habitualmente uso umas roupas vermelhas e amarelas a condizer com o carro. Mas eu hoje sou o Noddy de pintar. É por isso que estou todo de branco.

- Ah!!! – exclamei eu – Por momentos pensei que vinhas de uma dessas festas de fim de verão em que toda a gente se veste de branco. Mas afinal és apenas um boneco para miúdos que já pintam.

- Não, geralmente não vou a esse tipo festas. A não ser que haja crianças. Se houver crianças, é bem provável que me vejas por lá.

Este boneco começava a assustar-me. Tinha 47 anos, insistia em vestir-se de miúdo e conduzia um táxi amarelo, naquilo que mais parecia ser uma versão politicamente correcta do Robert De Niro em Taxi Driver.

- Ó boneco, tu não digas isso dessa forma que ainda arranjas problemas. Além do mais, provoca-me arrepios.

- Isso é da estrica. A mim também me acontece às vezes.

Topei-o logo. Já sei a que tipo de festas o gajo ia. De certeza que tinha ido ao Boom. O gajo tinha arrepios na espinha, amigos gnomos, vivia numa cidade de brinquedos, usava um barrete com guizos, a equação estava feita:

- Foste ao Boom, aposto.

- Não, por acaso este ano não fui. Tenho andado com muito trabalho. Mas já vi todos os vídeos do festival que estão no Youtube. Aquilo está quase a tornar-se num festival respeitável. Não sei se sabes, mas agora há uma zona branca. Chama-se Groove Beach.

- Mas isso é muito pouco psicadélico – fiz questão de salientar – Groove Beach está mais próximo de uma festa na praia do Tamariz do que de um festival independente de expressão artística. Se ainda fosse Groovy Bitch...

- Por falar em Groovy Bitch, viste o vídeo da tipa a dançar toda nua? – perguntou-me o boneco.

- Não, mas já ouvi falar. Acho que a mandaram tapar – fiz questão de referir com alguma decepção.

- Vê tu bem. Aquilo é repressão. Se a rapariga queria dançar nua, qual era o mal? Até porque, sem roupa, o contacto com a natureza é muito maior. O problema é que há sempre um moralista escondido em toda a parte. Até em Idanha-a-Nova.

- Mas tu gostas de Trance? - perguntei.

- Não, odeio. Se é para ouvir barulho, prefiro alguma coisa dentro do Metal. Deves saber que gravei uma versão do Abram Alas para o Noddy, The Lord of Darkness, com os Moonspell. Aquilo correu bem e até deu origem a uma nova tendência: Death Metal for Kids.

- Mas isso não provoca tendências suicidas nos pequenotes?

- É provável que sim. Mas até agora ninguém se queixou – assumiu com indiferença.

- Tu andas a arriscar muito, Noddy. Olha que andei a pesquisar umas coisas sobre ti na net e há lá muita coisa que não abona a teu favor – disse-lhe em tom de aviso.

- Ai sim?!!! – disse ele escarnecendo – então diz-me lá o que é que dizem sobre mim?

- Bom, as opiniões dividem-se. Uns dizem que não passas de um boneco de madeira carcomida, uma má imitação do Pinóquio, e que desejas vingar-te da Humanidade, atormentando as suas crias, só pelo simples facto de a ti nada te crescer. Nem as unhas. Outros, porém, vão mais longe e afirmam que fazes parte de uma seita satânica conhecida por praticar o Culto do Noddy, uma espécie de religião new age, versão infantil, e que o teu único objectivo é conseguires dinheiro para comprar um carro novo.

- Ora aí está um assunto que me interessa. Sabes que me roubaram o carro?

- Roubaram-te o carro? Não me digas que foste vítima de carjacking – referi com surpresa.

- Pois aí está uma coisa que ninguém sabe. Eu sou uma vítima do crime violento.
É sempre assim. Aperta-se com o bandido e ele faz-se de vitima. Eu já conhecia a estratégia e não iria ser apanhado desprevenido.

- Mas isso não é mau de todo – contrariei - podes sempre comprar uma bicicleta. É uma boa forma de contribuíres para a protecção do meio ambiente. Sim, porque aquele teu carro, aos anos que tem, deve poluir e bem. Além do mais, se o Lucky Luke trocou o cigarro por uma flor, tu também podes trocar o teu carro por uma bicicleta. Não és mais do que os outros e até te ficava bem.

Fez-se silêncio. Algo me dizia que esta entrevista estava a chegar ao fim. Noddy fixou-me o olhar e com um brilhozinho nos olhos, segredou:

- Mais uma piada dessas e faço rebentar este cinto de ligas que trago carregado de explosivos.

(texto escrito para o Jornal Lux-Frágil)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Histórias das ideias no dance floor

ANDAR A MILL


Ilustração: Ricardo Gaspar



“É preferível ser um homem insatisfeito
do que um porco satisfeito.”

J. S. Mill (1806-1870)


Se a filosofia fosse uma droga, John Stuart Mill seria “uma boa” grama de coca. Não que o seu pensamento se tenha transformado em pó e não nos reste outra alternativa senão fazer o mesmo que Keith Richards fez com as cinzas do pai. Nada disso. Mas a verdade é que depois dele uma boa parte da humanidade passou a andar a um ritmo nunca antes observado.

Devo, por isso, avisar o leitor: o contacto com as grandes linhas do pensamento de Stuart Mill pode provocar uma sensação de euforia, prazer e excitação sexual, seguida de um estado de ansiedade e depressão profunda. A partir daqui, o leitor está por sua conta e risco, não podendo dizer que não o avisei. Decidiu continuar? Então, prepare-se para a ressaca.

Como todos os homens bons, John Stuart Mill nasceu em Londres, no início do séc. XIX, e ficou para a história do pensamento como o mais útil dos filósofos, embora nos dias de hoje ninguém saiba muito bem o que fazer com ele. Juntamente com Jeremy Bentham e James Mill, que era seu pai, foi um dos percursores do utilitarismo, corrente filosófica que põe no centro da moral e da política a ideia de felicidade e de prazer.

Apesar de Stuart Mill ser um ilustre desconhecido, o utilitarismo é a corrente filosófica que reúne maior consenso nos dias de hoje. Com excepção dos sadomasoquistas, todas as pessoas têm o seu lado utilitarista, mesmo que o ignorem ou o tentem disfarçar. E isto porque o utilitarismo defende aquilo que parece ser a mais básica das ideias: o prazer é uma coisa boa e a dor uma coisa má.

Quando o utilitarismo começou a bombar nas pistas de dança e a passar nas rádios, a música não era completamente nova, uma vez que já fazia parte dos sucessos dos Epicuristas, um dos grupos mais conhecidos na Grécia Antiga. Apesar disso, acabaria por soar estranho à maioria das pessoas. Mas há que reconhecer: afirmar que a felicidade é a maximização do prazer e a liberdade o direito inalienável de a podermos alcançar não é música para todos os ouvidos. Porém, a moda haveria de pegar.

E pegou. Ao fim de alguns anos, Stuart Mill acabaria por se transformar no filósofo padroeiro das sociedades modernas e da cultura hedonista, e o utilitarismo tornar-se-ia a música mais ouvida nas pistas de dança, mesmo antes de haver pistas de dança.

Depois do sucesso do utilitarismo, a felicidade era objectivo essencial das nossas vidas. A questão estava em saber onde encontrá-la: no centro comercial ou no dealer mais próximo? Esta passou a ser a nossa dúvida existencial. E com o tempo, as nossas vidas acabariam por se transformar num deprimente episódio d’ O Sexo e a Cidade, mas com droga, onde as personagens hesitam entre o homem, o par de sapatos e o dealer que lhes vai mudar a vida. O importante é ser feliz.

E Stuart Mill sabia isso melhor do que ninguém. Em 1830 conhece Harriet Taylor, casada e mãe de dois filhos. Harriet seria a sua grande paixão e o seu grande amor. Sofre um desgosto amoroso e espera 20 anos para casar com ela. Como naquela altura não havia centros comerciais e viajar demorava mesmo muito tempo, o mais útil dos filósofos decidiu ir para o parlamento defender todas as formas de expressão da liberdade, com o objectivo de ocupar o tempo. E que útil isso nos foi!

Eleito para o parlamento inglês em 1865, Stuart Mill aproveita o momento para lançar o Everybody's Free (To Feel Good), tema que anos depois haveria de ser recuperado por Rozalla. Simultaneamente, faz campanhas a defender o direito de voto das mulheres, o controlo da natalidade, a contracepção, o divórcio, o fim da escravatura, o sufrágio universal e a abolição da pena de morte. Acusam-no de radical. É preso.

Porém, Mill não desiste. E vai mais longe: passa a defender o direito de cada um ter os seus Nike ID. A liberdade era isso: o poder de cada um exprimir a sua individualidade, a sua diferença, a sua originalidade.

Conquistado o direito a cada um ter o seu par de ténis personalizados, a factura acabaria por chegar: o I feel good do James Brown acabaria dar lugar ao (I can get no) satisfaction, dos Stones, para terminar com o Just because you feel good, doesn't make you right, dos Skunk Anansie. A vertigem do prazer dava agora lugar ao medo de sofrer. De repente descobrimos que não basta ser feliz. Mais: descobrimos que nada nos pode tornar mais infelizes do que a busca da felicidade. Principalmente quando a droga é má e as bebidas são maradas. Ficamos confusos. Desesperamos. E entramos na onda do vale tudo. Até passar a canção do beijinho.
Depois disto, vieram os profetas da desgraça, o Lipovetsky e a Era do Vazio. Caro leitor, bem-vindo à pós-modernidade. Eu avisei que isto ia dar ressaca.

JR

(escrito para a blah, blah, blah - revista do Lux-Frágil - em Julho de 2008)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Histórias das ideias no dance floor
DESCARTES’S NOT DEAD




Facto Histórico: Descartes era mesmo muito feio.
Ilustração: Vanessa Teodoro



“Cogito ergo sum”
René Descartes
(1596-1650)


Descartes é aquele filósofo que toda a gente conhece por duas ordens de razões: ou porque ouviu falar muito vagamente dele na escola, ou porque tem um primo que o estudou muito vagamente e também na escola. Tirando o facto da de a escola não ser a mesma, pouco há a acrescentar sobre isto, a não ser que este parágrafo mostra a minha total dificuldade em trazer o filósofo para a pista de dança.

É verdade. Desengane-se o leitor. Não consigo. Ao preparar-me para escrever este artigo descobri-me um cartesiano primário, o que me impede de pôr o filósofo a tocar, não porque Descartes esteja riscado, mas antes porque fiquei com a minha agulha partida. Fica, portanto, o leitor avisado, que : aquilo que agora se segue é a mais pura das bajulações àquele que ficou para a história como o mais moderno dos filósofos. E isto sem nunca ter usado roupa de marca.

Descartes era um porreiro, um fixe, um baril. Um gajo cheio de boa onda, que se esforçou por retirar o pessoal da idade média, esse período repleto de ignorância e obscuridade, que tende a reaparecer em muitas cabeças mesmo nos dias de hoje. Se defeitos tinha, era o de ser francês, mulherengo e preguiçoso. O que de resto, lhe haveria de ser fatal.

A obrigação de dar aulas de filosofia à rainha Cristina da Suécia todos os dias às cinco da manhã, durante um inverno excepcionalmente rigoroso, contrariando o seu velho hábito de acordar tarde, acabaria por lhe provocar a morte por pneumonia. O velho adágio ‘deitar cedo e cedo erguer’ pode fazer parte da filosofia para jovens, mas não faz, com toda a certeza, parte da filosofia cartesiana.

Descartes era um grande preguiçoso e sempre gostou de fazer pouco ou quase nada. É o próprio que o confessa à princesa Elisabeth da Boémia, a quem aconselha a fazer o mesmo. Já em miúdo, nos tempos em que frequentou o La Flèche, os jesuítas lhe haviam atribuído atribuíram-lhe um regime especial, permitindo-lhe que se levantasse quando queria e lhe apetecia. O que de resto vem provar que respeitar os ritmos próprios de cada um faz muito bem ao génio. E Descartes tinha um grande.

Tinha um génio tão grande, que as mulheres não o largavam. E a sua fama de mulherengo chegou até aos dias hoje, inspirando títulos como “As minhas noites com Descartes”, “Descartes, as mulheres e a filosofia”, ou ainda “Descartes e suas amizades femininas”, só para citar alguns. Fosse por puro interesse sexual ou mera curiosidade intelectual, a verdade é que René se correspondeu com princesas e rainhas, seduzindo-as com as suas posições modernas e movimentos mecânicos. Qual homem da Regisconta, Descartes era aquela máquina.

Mas se houve um tempo em o nosso filósofo facturava, hoje o seu pensamento encontra-se afastado das passerelles filosóficas da moda. Nos verdúnculos dias de hoje, em que a defesa do ambiente se tornou num pesadelo maior e mais difícil de suportar que o próprio buraco da camada do ozono, o mecanicismo cartesiano acabou por se tornar num bode expiatório, também ele mecânico, de todos os crimes ambientais.

Não vou pedir a um ambientalista que se exprima “como um motor se exprime”, que seja tão “completo como uma máquina”, “tão triunfante como um automóvel último-modelo”, que se acaricie com Álvaro de Campos, masturbe com a Ode Triunfal, com o “r-r-r-r-r-r-r eterno!”, e se venha com o triunfo da máquina e da energia mecânica.

Muito menos que perceba a música dos Kraftwerk, se transcenda ao som de we are the robots, ou seja capaz de ter ideias tão claras e distintas como a simples constatação I'm the operator with my pocket calculator. Não vou pedir, porque no máximo dos máximos ele só chega ao “Olha o robot!”, dos Salada de Fruta, cantado pela Lena d’Água.

Alem disso, também não quero incomodar tão verdoso ser no seu esforçado intento de “pensar como uma montanha”, ou na sua heróica missão de libertar todos os porcos e galinhas da tão ‘horrível’ dominação humana.

No espírito zoófilo que caracteriza os nossos tempos, afirmar a distinção entre humanidade e animalidade é um crime horrendo, muito pior que bater na mãe ou cuspir na sopa. Mas não se engane o leitor: não há nada de altruísta no amor cego aos animais, apenas um profundo ódio a tudo o que é humano.

Mas voltemos a Descartes. Descartes’s not dead! Ele que sempre foi um homem de certezas e que haveria de ficar universalmente conhecido por afirmar “penso, logo existo”, a única proposição que reconhecia como certa, apenas porque confirmada pela método da dúvida.

Esta concisa e simples afirmação, que toda a gente conhece de cor como a tabuada, teve o poder de demonstrar que um homem que duvida é um homem que pensa, e um homem que pensa é um homem que existe, afirmando assim o exercício do pensamento como fundamento da nossa relação com o mundo. Como diria um amigo meu, a palavra do mês é: pensar!

JR

(escrito para a blah, blah, blah - revista do Lux-Frágil - em Maio de 2008)